A trajetória profissional de Kamille Cunha passou por uma transformação radical. Depois de duas décadas e meia atuando no mercado da moda, a estilista curitibana migrou para o setor imobiliário e hoje comanda a Ka.Ka. Curadoria de Imóveis, uma imobiliária boutique especializada em propriedades de alto padrão.
A transição não foi planejada, mas carrega elementos de toda uma vida. Formada em Belas Artes com foco em escultura e com estudos em Moda, Negócios, Varejo de Moda e Gestão, Kamille construiu carreira em grandes marcas como Farm, Animale, Ricardo Almeida e Renner. Também manteve por anos uma relação comercial com fornecedores na China, experiência que ampliou seu repertório internacional.
Hoje, esse histórico se reflete na forma como ela analisa imóveis. “A moda me treinou a ter um olhar mais crítico sobre o produto, a perceber detalhes e, principalmente, a entender para quem ele faz sentido. Aprendi a analisar comportamento e público-alvo e hoje levo esse repertório para o mercado imobiliário. Isso me ajuda a reconhecer o potencial de um imóvel e onde realmente vale a pena investir”, diz.
O que este artigo aborda:
- O fascínio que vinha de casa
- Vídeos que viralizaram e mudaram o negócio
- Carteira enxuta e foco em alto padrão
O fascínio que vinha de casa
O interesse por imóveis não nasceu com a mudança de carreira. Kamille cresceu cercada pelo universo da construção civil: o pai montou uma fábrica de móveis e a mãe tinha uma empresa que fornecia portões eletrônicos para empreendimentos imobiliários. Desde criança, ela acompanhava a mãe em visitas a grandes obras e desenvolveu familiaridade com plantas e detalhes construtivos.
Aos 22 anos, leu “Memórias de Danuza Leão”, em que a apresentadora relatava a compra, reforma e venda de apartamentos antigos. A ideia ficou guardada. “Eu me apaixonei por essa possibilidade”, lembra Kamille. “Eu queria muito comprar apartamentos, reformar e vender.”
A pandemia de 2020 criou as condições para que o desejo se tornasse realidade. Depois de dissolver o escritório ligado à moda e retornar definitivamente a Curitiba, Kamille comprou o imóvel onde mora e decidiu reformá-lo. Ela montou a apresentação do projeto para a arquiteta, acompanhou as escolhas e chegou a transportar saco de cimento no próprio carro. A experiência confirmou que aquele caminho fazia sentido.
Seu foco está em imóveis que ainda permitem exercícios de imaginação: apartamentos antigos, espaços reformados ou propriedades que guardam características de outras épocas. “Quando entro no apartamento, eu consigo ver o belo. Presto atenção em todos os detalhes, desde a luminosidade, a planta, os tacos, as sancas, tudo o que pode dar ainda mais valor para aquele espaço. Sou muito criteriosa na escolha dos imóveis que vão fazer parte da minha carteira”, diz. “Os apartamento mais antigos, aliás, são as minhas maiores paixões”, complementa.
Vídeos que viralizaram e mudaram o negócio
A entrada no mercado imobiliário foi gradual. Kamille estudou, tirou o CRECI e começou fazendo de tudo até entender onde queria atuar. A resposta veio pelas redes sociais, embora ela inicialmente resistisse à ideia de gravar vídeos.
O primeiro foi de uma casa no Campo Comprido, avaliada em cerca de R$ 5 milhões. Depois veio o “Xuxu do Bigorrilho”, apartamento que viralizou e começou a atrair pessoas até os imóveis que ela apresentava.
“Os vídeos foram um divisor de águas. As pessoas começaram a me procurar para me dar os imóveis. E, para vender, meus vídeos ajudavam. Aliviou a pressão de ter que achar o cliente”, diz.
As gravações passaram a integrar o processo de venda. Kamille não trabalha com roteiros rígidos: prefere entrar no imóvel e descobrir sua história enquanto percorre os ambientes. O resultado apareceu nos números. No primeiro ano de trabalho, ela bateu a meta anual já no terceiro mês.
O perfil nas redes também ampliou seu alcance para interessados nos Estados Unidos e na Europa, permitindo que ela escolhesse melhor os imóveis com os quais queria trabalhar.
Carteira enxuta e foco em alto padrão
A Ka.Ka. Curadoria de Imóveis foi criada em outubro de 2025, depois de Kamille receber propostas de diferentes empresas do setor. Em vez de aceitar, ela decidiu montar a própria imobiliária. A estrutura é enxuta, com uma carteira de no máximo 25 imóveis.
A empresa atua com propriedades a partir de aproximadamente R$ 1,5 milhão e pode chegar a imóveis de R$ 30 milhões. No segmento de alto padrão, parte das negociações acontece de maneira discreta, no chamado mercado off-market.
A escolha por uma carteira menor reflete a forma como Kamille entende a relação com seus clientes. Antes de uma negociação, ela procura entender por que alguém quer vender e o que está por trás da decisão. “Eu não quero crescer muito. Cada vez mais quero que as pessoas me escolham.”
Para ela, a mudança de área não significou abandonar o que aprendeu. “Consigo enxergar beleza e potencial em um imóvel abandonado. Gosto de perceber a história que ele carrega, imaginar a vida que aquele espaço ainda pode ter e identificar a valorização que pode alcançar quando recebe o cuidado e o olhar certos.”
A matéria mudou, mas o olhar apurado continua sendo o principal diferencial.
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