A profissão de corretor de imóveis tem um pré-requisito raro no comércio brasileiro: quem não prova preparo formal não pode intermediar um negócio. Entre os mais de 650 mil profissionais em atividade no país, 62% concluíram curso superior, segundo censo do COFECI com o DataZAP, do Grupo OLX.
O levantamento foi feito pelo Conselho Federal de Corretores de Imóveis com apoio da Pnad/IBGE. O retrato descreve uma atividade comercial que exige credencial antes do primeiro atendimento. No resto do comércio brasileiro, essa exigência simplesmente não existe.
O que este artigo aborda:
- Quantos corretores de imóveis atuam no Brasil
- O que a lei exige de quem intermedeia a compra de um imóvel
- Por que 62% com curso superior mudam a conversa com o cliente
- O que acontece quando a venda não tem credencial obrigatória
- Como conferir se quem está atendendo é qualificado
Quantos corretores de imóveis atuam no Brasil
O país reúne mais de 650 mil corretores de imóveis em atividade, o segundo maior contingente do mundo.
O número aparece no censo divulgado pelo CRECI-SC, que também mostra 92% de dedicação exclusiva à corretagem e 71% de atuação autônoma. Só os Estados Unidos têm mais profissionais registrados, conforme dados do COFECI publicados pela ADEMI-RJ, que contabilizam cerca de 70 mil imobiliárias em operação.
O contingente também se distribui de forma desigual pelo país. Em Santa Catarina, o CRECI-SC contabiliza mais de 51,5 mil corretores credenciados e em atividade, cerca de 7,9% de todos os profissionais do Brasil. A concentração acompanha o movimento do mercado imobiliário local.
| Indicador do perfil profissional | Proporção |
|---|---|
| Concluíram curso superior | 62% |
| Dedicam-se exclusivamente à corretagem | 92% |
| Atuam de forma autônoma | 71% |
A leitura desses três indicadores é direta. A corretagem deixou de ser atividade ocasional e virou ocupação principal de gente com formação formal. Para quem compra, isso significa encontrar do outro lado da mesa alguém que exerce a profissão de corretor de imóveis em tempo integral.
O que a lei exige de quem intermedeia a compra de um imóvel
A lei permite o exercício da corretagem apenas a quem possui título de Técnico em Transações Imobiliárias.
A regra está no artigo 2º da Lei 6.530, que também atribui ao Conselho Federal de Corretores de Imóveis a disciplina da categoria. A inscrição no Conselho Regional é o passo que transforma o preparo em pré-requisito, não em diferencial opcional.
A exigência não para na pessoa física. Uma imobiliária inscrita no conselho precisa ter como sócio gerente ou diretor um corretor de imóveis individualmente inscrito. O registro, portanto, alcança tanto quem atende quanto a empresa que responde pelo negócio.
Na prática, a intermediação feita por quem não tem registro fica fora do amparo da lei. O comprador que fecha negócio nessas condições perde o canal de fiscalização do conselho regional. É esse desenho que separa a profissão de corretor de imóveis da maior parte do comércio brasileiro.
Por que 62% com curso superior mudam a conversa com o cliente
A formação superior amplia o repertório técnico de quem explica documentação, matrícula, vistoria e negociação ao comprador.
O índice de 62% mais que quadruplicou em relação ao início da série histórica desse mesmo levantamento. A mudança aparece na conversa: quem entende de registro de imóveis e de cláusula contratual conduz o comprador por decisões que envolvem patrimônio. Nada disso vira automático.
Outro número do levantamento ajuda a entender o efeito. Com 92% dedicados exclusivamente à corretagem, a atividade deixou de dividir espaço com outra ocupação na rotina do profissional. Quem atende o comprador está no assunto o dia inteiro, e isso aparece no detalhe das respostas.
A credencial não assegura empatia, escuta nem clareza na explicação. Ela responde por um piso técnico verificável, e o comprador ainda precisa medir o resto por conta própria. É aí que a profissão de corretor de imóveis vira um bom espelho para o restante do comércio.
O que acontece quando a venda não tem credencial obrigatória
Na maior parte do comércio brasileiro não existe barreira formal de entrada para quem vai atender o cliente.
Não há conselho que fiscalize, nem título exigido antes do primeiro contato. A consequência prática é que o preparo vira decisão de cada empresa, e o comprador descobre o nível de quem atende durante a própria conversa. O contraste com a profissão de corretor de imóveis não é pequeno.
Parte do mercado tenta cobrir essa lacuna por conta própria. Programas de formação comercial vendem preparo prévio como substituto do que a lei não pede, com resultados que variam de empresa para empresa. É nesse ponto que quem forma vendedores tem algo a dizer.
Pedro Sirius é fundador da SalesLab, empresa de Curitiba que forma profissionais de vendas em closers e SDRs antes de encaminhá-los ao mercado. Sobre o contraste entre os dois mundos, o fundador afirma:
“Em imóveis, ninguém entra sem registro. Em vendas em geral, uma pessoa pode ser apresentada ao cliente no primeiro dia de casa, sem nenhum preparo formal. Por isso a gente inverteu a ordem: o profissional investe tempo e recurso próprio na especialização antes de entrar no nosso banco de talentos, e não depois que a empresa contrata.”
Para o fundador, a credencial e o repertório operam em camadas distintas. “A credencial resolve a parte formal, mas o repertório da conversa é a parte que ninguém consegue terceirizar.”
Como conferir se quem está atendendo é qualificado
A consulta ao registro ativo no conselho regional é o primeiro passo, e leva poucos minutos.
Cada Conselho Regional de Corretores de Imóveis mantém sede na capital do estado e responde pela fiscalização da categoria na jurisdição. Confirmado o registro, o que resta medir é o repertório da conversa, e isso aparece nas perguntas que o profissional faz.
- Pergunte qual é o número de inscrição no conselho regional e confira se está ativo.
- Peça a matrícula atualizada do imóvel e observe se o profissional explica cada item dela.
- Verifique se ele descreve as etapas do negócio na ordem, da proposta à escritura.
- Repare se ele aponta riscos do imóvel, e não apenas atributos.
Na profissão de corretor de imóveis, as perguntas certas valem mais que o currículo. Um corretor preparado descreve o que pode dar errado no negócio antes de descrever o que pode dar certo. Essa inversão é observável em qualquer atendimento, e não depende de nenhum documento.
A diferença entre os dois mundos não está no diploma pendurado na parede. Está na quantidade de decisões que o cliente consegue tomar com segurança depois da conversa. Esse é o teste que vale para qualquer venda, com credencial obrigatória ou sem ela.
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